Literacy is a foundational skill that is essential for adults to function effectively in society as citizens, employees and family members. The literacy demands on adults are increasingly complex and the price of poor literacy is increasingly high. Accordingly, accessible, flexible, high-quality adult literacy provision is an essential part of any modern education system” (ELINET, 2016).

A melhoria dos níveis de Literacia em Saúde, a promoção do espírito crítico das pessoas face às suas decisões de saúde e as ferramentas disponíveis para este fim, apresentam-se como um desafio da Saúde Pública em Portugal” (DGS, Plano de Ação para a Literacia em Saúde 2019-2021).

Políticas sobre Literacia em Saúde

No Value for Health Colab, a nossa visão e ação de promoção da Literacia em Saúde estão em total consonância com as orientações gerais do atual Plano Nacional de Saúde (PNS) e do Plano de Ação para a Literacia em Saúde (PALS). Nestas diretrizes, o cidadão surge como o elemento central no Sistema de Saúde, “tem o direito e o dever de influenciar as decisões em política de saúde que afetam coletivamente a população, no desempenho dos seus diferentes papéis:

  1. o de doente com necessidades específicas;
  2. o de consumidor com expectativas e direito a cuidados seguros e de qualidade; e
  3. o de contribuinte do Serviço Nacional de Saúde”.

Assume-se, portanto, que o cidadão é um participante importante no sistema e um promotor ativo de mudanças.

O processo que permite aos cidadãos serem muito mais ativos em relação à saúde tem como alicerce a educação e a literacia em matéria de saúde. De forma geral, procura-se promover ganhos na saúde, fomentar o bem-estar da população e contribuir globalmente para o aumento da qualidade de vida.

Olhando por este prisma, no Value for Health Colab observamos dois eixos de atuação importantes que queremos consolidar, testando as abordagens e construindo metodologias adaptadas às necessidades concretas de cada projeto:

  • Por um lado, queremos ir ao encontro da necessidade de sensibilizar os cidadãos para uma cultura de cidadania, com maior enfoque na sua capacidade de autonomização e de responsabilização em relação à sua saúde e à de quem os rodeia;
  • Por outro, existe a necessidade de se realizarem ações de promoção da literacia que, de modo educativo, mantenham as pessoas mais bem informadas sobre assuntos relacionados com saúde e a prevenção de doenças.

Relação entre Literacia em Saúde e Terminologia

Os estudos mostram que os níveis gerais de literacia em Portugal ainda são baixos. A maioria das pessoas tem dificuldade em compreender linguagens técnicas ou complexas, como, por exemplo, as instruções para tomar medicamentos, os resultados de exames de diagnóstico ou documentos legais. Daí que seja importante desenvolver metodologias para melhorar a forma como a informação é apresentada nos documentos públicos e ajudar os cidadãos na realização de escolhas informadas sobre a sua saúde, educação, bem‑estar e direitos civis (Pedro, Amaral e Escoval, 2016).

Neste sentido, a Terminologia possui múltiplas interfaces na ligação que estabelece entre as ciências da linguagem e as áreas do conhecimento (Costa, Silva e Campos, 2020), por exemplo, com a da Saúde. Tem por objeto de estudo o termo enquanto unidade de conhecimento dotada de duas dimensões, uma linguística e a outra conceptual. Qualquer trabalho terminológico deve ter em conta esta perspetiva na sua abordagem à metodologia utilizada para a “systematic collection, description, processing and presentation of concepts and their designations (ISO 1087: 2019). Assim, no seu trabalho, o terminológo deve identificar o termo e o conceito designado ou então, o conceito e o termo que o designa, a definição textual possibilitando a estabilização da relação entre um e outro (Costa, Silva e Campos, 2020).

O exercício de vulgarização da terminologia técnico científica, quando seja possível realizá-lo, implica que, apesar de tudo, a terminologia utilizada seja precisa e adequada ao propósito da comunicação, e que transmita a informação de forma transparente e simples, tendo em vista o público-alvo, o contexto e a finalidade a que se destina. Podemos admitir a possibilidade de uso de diferentes termos para diferentes públicos, ou seja, em função das diversas situações, é preciso estar ciente da tensão criada entre o desejo de precisão e a complexidade que imprime a literacia.

O Glossário Colaborativo COVID-19

 Este exemplo de recurso terminológico para não especialistas não podia ser mais atual. O Value for Health CoLAB está a colaborar no Glossário Colaborativo COVID-19, concebido e liderado pelo NOVA CLUNL com a parceria de diversas instituições de língua portuguesa: a Universidade de São Paulo, a Universidade Agostinho Neto e a Academia das Ciências de Lisboa. Este glossário colaborativo reagrupa a terminologia utilizada pelas instituições de Saúde, os profissionais da área, assim como por todos os outros interlocutores, permitindo o acesso a informação terminológica organizada sobre a doença, numa linguagem clara e de fácil entendimento; esta constitui umas das peças essenciais no processo de prevenção dos riscos em saúde.

Tal como preconiza a OMS, a promoção da literacia em saúde passa pela ativação do conjunto das competências cognitivas e sociais e da capacidade dos indivíduos para ganharem acesso a compreenderem e a usarem informação, de forma que promovam e mantenham uma boa saúde. Para o efeito, é necessário envolver os doentes no seu próprio processo de segurança e tratamento, mantendo-os devidamente informados e conscientizados para todos os aspetos do seu percurso clínico.

Reforçar o trabalho colaborativo e fomentar a interdisciplinaridade

O trabalho colaborativo está mais do que nunca na ordem do dia. Para Roldão (2007), “o trabalho colaborativo estrutura-se essencialmente como um processo de trabalho articulado e pensado em conjunto, que permite alcançar melhor os resultados visados, com base no enriquecimento trazido pela interação dinâmica de vários saberes específicos e de vários processos cognitivos”. É desta sinergia de pensamento comum e da interação proveniente de diversas áreas do conhecimento que é gerado o valor acrescentado. A interdisciplinaridade resulta desta partilha de diferentes disciplinas que, trabalhando em conjunto, de forma articulada, procuram novas abordagens que constituam a síntese cognitiva dessa interligação entre disciplinas (Choi e Pak, 2006).

No Value for Health CoLAB estamos cientes que os novos desafios com grande potencial para a investigação interdisciplinar residem nos cruzamentos das áreas das ciências sociais e humanas, das tecnológicas e das engenharias, quer entre si, quer com um vasto leque de outras disciplinas.

Os projetos de maior inovação, onde se procura valorizar o conhecimento, resolvendo problemas concretos ou desenvolvendo novos produtos ou serviços são, por natureza, colaborativos e interdisciplinares, abrindo assim as portas a novas e desafiantes perspetivas de investigação na área da saúde.

— Sobre o autor —

Enquanto Responsável de Literacia em Saúde, a Raquel explora metodologias de Linguística e Terminologia, e desenvolve conteúdos adequados para Literacia em Saúde e Comunicação com doentes, profissionais de saúde, cuidadores, gestores em Saúde e outros grupos envolvidos na prestação de cuidados de saúde.

Referências

Choi, B.; Pak, A. – “Multidisciplinarity, interdisciplinarity and transdisciplinarity in health research, services, education and policy: Definitions, objectives, and evidence of effectiveness”, Clinical & Investigative Medicine journal, Vol. 29, no 6, December 2006.

Costa, R; Silva, R; Campos, M.I.  – “Terminologia, uma disciplina de interfaces”, Prefácio, Número 33/1 da Revista Linha d´Água (ISSN 2236-4242) “Semântica e Morfologia em Terminologia”, Brasil, Março 2020.

ISO 1087:2019 (F), Terminology work and terminology science — Vocabulary. Geneva.  International Organization for Standardization.

Larivière, V; Gingras, Y – “Measuring inter-­‐disciplinarity”,  in B. Cronin & C. Sugimoto (Eds.), Beyond Bibliometrics: Harnessing Multidimensional Indicators of Scholarly Impact. Cambridge, Mass.: MIT Press, 2014

Ministério da Saúde. Plano de Ação para a Literacia em Saúde 2019-2021 – Portugal. Lisboa: Direção-Geral da Saúde, 2018.

Ministério da Saúde. Plano Nacional de Saúde, Revisão e Extensão a 2020. Lisboa: Direção-Geral da Saúde, 2015.

Roldão, M. – “Colaborar é preciso: questões de qualidade e eficácia no trabalho dos professores.,” in Dossier: Trabalho colaborativo os professores, Revista Noesis, n.º71, 2007.

Valtin, R et al. (chair) – European Declaration of the Right to Literacy. European Literacy Policy Network (ELINET), 2016.

Pedro, A. R.; Amaral, O.; Escoval, A. – Literacia em saúde, dos dados à ação: tradução validação e aplicação do European Health Literacy Survey em Portugal, Revista Portuguesa de Saúde Pública, 2016.