Raquel Silva, a nossa Responsável de Literacia em Saúde, partilha a sua visão acerca da importância da educação digital e colaborativa para melhorar a Literacia em Saúde

Transformação digital no sector da Saúde

No contexto atual da transformação digital, as formas de comunicar têm vindo a acelerar-se e a afetar todas as áreas de atividade, inclusive o sector da Saúde. Esta transformação já estava em curso, mas, desde o início da pandemia da COVID-19, estamos a passar pelo maior movimento de partilha em massa de informação jamais visto até hoje. A necessidade de acompanhar o ritmo desenfreado da avalanche de dados de informação sobre a epidemia, compreendê-los e partilhá-los de forma quási instantânea, seguindo o ritmo das notícias ao minuto, tem sido um desafio para todos. 

Os focos de informação em Saúde são hoje muito variados, podendo surgir nos centros de investigação, nas empresas do sector da Saúde, no seio das atividades destes profissionais (hospitais, centros de saúde, farmácias, etc.), nas instituições reguladoras (OMS, DGS) ou ainda nos chamados recetores finais que são os doentes, seus familiares, na comunicação social ou nos cidadãos em geral, formando um ecossistema da saúde e do digital (Guedelha, 2018).

O que se tornou evidente com a experiência vivida por culpa da COVID-19 é que a partilha de informação não é necessariamente a partilha de boa informação e que, a partilha de suposta boa informação também não resulta necessariamente na partilha de conhecimento. 

Ambos, informação e conhecimento, são elementos centrais na transformação digital em curso, mas que terá mais êxito quando todos os intervenientes participarem em colaboração, partilhando esforços e sinergias, não esquecendo que a transformação digital não é apenas tecnológica, mas também cultural, o que implica que alcance toda a sociedade. A educação é, por isso, fundamental neste processo de transformação.

 

A via da Educação Digital e Colaborativa

O processo que permite que os cidadãos sejam muito mais ativos em relação à sua saúde tem como pilares a educação e a literacia em matéria de saúde. No Relatório Final do Grupo Técnico para a Informação no Sistema de Saúde, menciona-se que “a tomada de consciência para a importância deste tema surge a partir do momento em que começa a tornar-se claro que o nível de literacia dos indivíduos constitui um fator que condiciona, de forma decisiva, o modo como estes são, ou não, capazes de tomar decisões racionais e acertadas relacionadas com a sua saúde. Afeta (…) a qualidade de vida dos indivíduos e daqueles que deles dependem (…), mas pode ter também implicações nos custos e nos modos de organização dos sistemas de saúde” (Ribeiro et al., 2015).

O mesmo relatório apresenta estudos que confirmam uma relação entre uma literacia limitada e a baixa escolaridade, a sua associação com situações de pobreza e exclusão social e a correlação negativa entre a literacia e a idade, sendo esta de especial relevo face a uma população portuguesa cada vez mais envelhecida.

Em prol de uma maior educação digital já em marcha, o conceito de literacia em saúde tem evoluído no sentido da ligação com a capacidade individual de cada um de nós em responder às crescentes exigências da saúde, na sociedade moderna (Sørensen et al., 2012), com especial enfoque nos processos de adaptabilidade e de colaboração entre todos os atores da área da Saúde.

O sucesso deste percurso depende grandemente do grau de literacia digital envolvido no próprio desenvolvimento das soluções tecnológicas. Importa assim criar condições para que este conhecimento chegue a profissionais de saúde e doentes.

 

Fórmula assente numa linguagem clara e terminologia adequada

A linguagem clara é a expressão simples e direta de uma informação que se pretende comunicar, quer partindo de textos já existentes, adaptando a sua língua técnica aos cidadãos comuns, quer através da produção de textos que, desde a sua origem, são concebidos em linguagem clara, com vista a um maior entendimento por parte do público-alvo. “Uma comunicação está em linguagem clara quando o texto, a estrutura e o design são tão claros que o público-alvo consegue encontrar facilmente o que procura, compreender o que encontrou e usar essa informação” (Federação Internacional de Linguagem Clara)

Os critérios utilizados para escrever em linguagem clara podem aplicar-se a qualquer língua e a qualquer área do conhecimento. São, por isso, na sua maioria, critérios bastante gerais, sem, porém, ignorarmos a existência de fenómenos linguísticos próprios ao funcionamento de cada língua, que também podem ser critérios pertinentes.

No Value for Health Colab estamos a trabalhar na recolha, sistematização e classificação dos critérios linguísticos mais recorrentes para comunicar em linguagem clara, com maior enfoque na adaptação e produção de textos/mensagens escritos em português europeu (Manual de Literacia em Saúde do VOH.Colab [em curso]). Esta metodologia está a ser enriquecida com a adição de outros critérios destinados à vulgarização do discurso técnico e científico utilizado na área da Saúde, em particular, na área da Saúde baseada em Valor, por via da criação de um recurso terminológico, o VOH.Term, uma base de dados de conceitos que, no futuro, ajudará a melhorar a comunicação nesta área do conhecimento. 

 

Referências

Guedelha, D. (2018), Pharmaceutical Cluster in Portugal and Michael Porter Diamond Theory. Lisboa: Deloitte.

Plain Language Action and Information Network (PLAIN). Federal Plain Language Guidelines, March 2011, Revision 1, USA; May 2011. 

Ribeiro, & al., (2015), Iniciativa para a Informação Centrada no Utente do Sistema de Saúde. Grupo Técnico para a Informação no Sistema de Saúde. Governo de Portugal, Ministério da Saúde.

Sørensen, K.; Van den Broucke, S.; Fullam, J.; Doyle, G.; Pelikan, J.; Slonska, Z.; Brand, H. (2012),  Health literacy and public health: A systematic review and integration of definitions and models. BMC Public Health.